Alagoas, 16 de setembro de 2019

Caso Cabo Gonçalves: coronel Cavalcante é condenado a 21 anos de prisão

O irmão do coronel, Marcos Antônio Cavalcante, foi absolvido pelos jurados

Guilherme Carvalho Filho – Repórter

O réu Manoel Francisco Cavalcante, conhecido como coronel Cavalcante, foi condenado a 21 anos de prisão pelo homicídio qualificado de José Gonçalves da Silva, o cabo Gonçalves, ocorrido em maio de 1996. O irmão do coronel, Marcos Antônio Cavalcante, foi absolvido pelos jurados. O julgamento, ocorrido ontem (23), terminou por volta das 22h30.

“Nesse ponto, considerando que o réu atualmente está em regime semiaberto, em virtude de outras condenações criminais transitadas em julgado (processo de execução nº 0081959-81.2008.8.02.0001), se vislumbra a possibilidade de regressão do regime, o que justifica sua segregação cautelar como medida para assegurar a aplicação da lei penal, nos termos do artigo 312 do Código de Processo Penal”, disse o magistrado.

Esta foi a segunda vez que os acusados foram levados a júri por esse crime. Em 2011, a dupla foi julgada e absolvida pelo Conselho de Sentença. Após recurso do Ministério Público, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) considerou que os jurados decidiram de forma contrária às provas dos autos e determinou novo julgamento.

DEPOIMENTO

A primeira a depor foi a irmã do cabo Gonçalves, Ana Maria Valença. Emocionada, ela disse que de 88 até o ano de 1996 lutou para manter o irmão vivo. Segundo ela, o militar sofreu várias emboscadas, numa delas perdendo parte da orelha. Ela acredita que cabo foi assassinado por ter se negado a matar o prefeito de Coruripe, que à época era Eneas Gama, a mando de João Beltrão.

Ela relembrou, no depoimento, que o ex-tenente-coronel Cavalcante teve a audácia de ir ao velório embriagado. Conforme a depoente, ele ainda chacoalhou e tentou agredir o cabo Gonçalves no caixão.

A testemunha contou ao Conselho de Sentença que Cavalcante teria puxado a pistola para atirar em sua irmã, quando a mesma tentou afastá-lo do local. Ainda segundo o depoimento, o seu sobrinho, de 13 anos, morreu de infarto fulminante logo depois.

Ana Valença afirmou que os irmãos Cavalcante sempre a ameaçaram e que, às vésperas do primeiro julgamento, carros pretos rondavam sua casa. Além disso, recebeu recados ameaçadores. “Deixei de casar e constituir família, porque se morresse não teria filhos ora sofrer. Eu fui muito ameaçada, mas não tenho medo de morrer porque perdi meu bem maior, que era meu irmão”.

A testemunha recordou que seu irmão foi morto com mais de 70 tiros. “Eu não enterrei um homem, enterrei a metade de um”. E completou: “Quando cheguei ao IML não permiti que ninguém da minha família entrasse e olhasse meu irmão. Um homem sem olho, sem orelha e despedaçado. Só não tinha perfuração dos joelhos pra baixo”, falou.

O CASO

O crime ocorreu em 9 de maio de 1996, por volta das 11h, em um posto localizado na avenida Menino Marcelo, em Maceió. De acordo com a denúncia, Marcos Antônio Cavalcante, acompanhado de outros acusados, teria efetuado disparos contra cabo Gonçalves, enquanto coronel Cavalcante teria ficado em seu veículo, prestando auxílio aos executores.

Os réus são acusados de integrar a extinta “Gangue fardada”, formada, em sua maioria, por policiais e ex-policiais militares, e apontada como responsável por uma série de crimes ocorridos nas décadas de 80 e 90 em Alagoas, como homicídios, assaltos e sequestros.