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Fotografias produzidas por moradoras de grotas são publicadas em relatório global

Duas fotografias registradas por jovens moradoras das grotas de Maceió foram inseridas no Covid-19 Response Report Activities (em tradução livre: “Relatório de Atividades em Resposta à Covid-19”), publicação produzida e disponibilizada na última quarta-feira (30) pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) – agência da ONU dedicada à promoção de um futuro urbano melhor, por meio de cidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis.

O documento de 61 páginas, elaborado originalmente em inglês e disponível para acesso no endereço https://unhabitat.org/covid-19-response-report-of-activities, descreve as atividades realizadas pela agência durante a pandemia em vários lugares do mundo, incluindo Alagoas, onde o ONU-Habitat atua em parceria com o Governo do Estado desde 2017.

E é justamente na iniciativa mais recente – o Projeto Emergencial de Monitoramento da Covid-19 nas grotas de Maceió – que Maysa Reis, 28, e Mary Alves, 25, estão inseridas. As autoras das duas imagens, que estampam respectivamente as páginas 43 e 44 do relatório, participam da ação no componente de engajamento e comunicação comunitária. Nove jovens moradores das comunidades foram selecionados para criação de conteúdos de comunicação com o objetivo de promover a conscientização e difusão de informações sobre a pandemia nas grotas.

Parte do material já produzido pela turma pode ser conferida no perfil do Instagram @visaodasgrotas. Ao final, o conteúdo será editado e transformado em um documentário curta-metragem.

“O projeto em si é incrível! E além de tudo une tudo o que acredito que é o audiovisual e a potencialidade da periferia”, comemora Maysa Reis, moradora da grota das Piabas, no bairro do Jacintinho. “Fiquei muito honrada quando fui selecionada e acredito que é um projeto promissor para os jovens das comunidades de Maceió porque podemos falar e fazer arte sobre muitos temas. Temos muito para abordar”, considera.

A imagem capturada por Maysa e publicada no relatório global do ONU-Habitat mostra a pequena Ágata, moradora das Piabas, segurando uma claquete. A mãe da criança foi uma das entrevistadas pela integrante do projeto em sua missão de captar depoimentos, sons e imagens para o documentário.

“Pra mim, que já trabalho com audiovisual, tem sido uma experiência rica em me aproximar ainda mais de onde eu moro e das questões que nos permeiam, e abordar esse ano ‘cabuloso’ e todas as consequências dele em nossas vivências”, pondera Maysa, jornalista de formação, com mestrado em Cinema e currículo recheado de realizações no audiovisual local.

Já a foto capturada por Mary Alves mostra Dona Cícera, uma vendedora de amendoim equilibrando uma bacia na cabeça enquanto caminhava para mais um dia de trabalho. “Foi a primeira mulher que entrevistei para a primeira fase do projeto”, revela a cantora e compositora moradora do Morro do Ari, também localizado no Jacintinho.

Sobre a conversa com a moradora, a jovem artista classificou o relato como “emocionante e necessário”. “Ela nos conta que sempre acreditou no vírus da Covid-19 tomando todos os cuidados, mesmo com a descrença de tantas pessoas a seu redor”, relata Mary. “Esse registro é sobre essa força motriz, é sobre conscientização, é sobre segurança. A publicação no relatório global de ações do ONU-Habitat me deixou muito feliz, pois é fruto de nossa dedicação no projeto”, comenta.

A escolha das fotografias tiradas pelos alagoanos surpreendeu também a equipe do ONU-Habitat no estado. “Há fotos de projetos realizados em todo o mundo, com imagens feitas por fotógrafos profissionais, então termos as fotografias produzidas pelo nosso projeto selecionadas é um reconhecimento especial”, assinala Paula Zacarias, Analista de Programas do escritório ONU-Habitat em Alagoas. “Acredito que está sendo uma descoberta para alguns deles, de captar novos olhares e novas formas de se comunicar”, pondera.

A turma segue sendo capacitada, orientada e estimulada pelo projeto com Oficinas de comunicação popular que acontecem quinzenalmente e com última edição prevista para o próximo dia 15 de outubro. “Estamos bem satisfeitos com o engajamento deles. Os registros estão muito bacanas. É uma turma muito talentosa”, avalia Paula.

Circuito Urbano

O mesmo projeto que envolve os jovens das comunidades possui ainda outro componente com um objetivo distinto, mas convergente: a produção de dados estatísticos sobre os impactos sanitários e socioeconômicos da Covid-19 nas 100 grotas, bem como a percepção, atitudes e conhecimentos dos seus moradores sobre a pandemia.

Desde o final de julho, coletas periódicas de informações são realizadas por meio de entrevistas telefônicas. Ao final, após ouvir mais de quatro mil e quatrocentos moradores em três etapas, o projeto pretende elaborar um diagnóstico da realidade social, econômica e sanitária dos assentamentos para auxiliar na criação e no aprimoramento de soluções emergenciais e políticas públicas.

“Estamos aplicando mais de quatro mil questionários para moradoras e moradores das grotas para entender os impactos e desafios e para identificar como eles enxergam a pandemia, de maneira que possamos incrementar as políticas públicas do Governo do Estado”, explicou Rayne Ferretti Moraes, Oficial Nacional do ONU-Habitat para o Brasil, durante a abertura do Circuito Urbano, na última quinta-feira (01).

Tanto essta quanto as demais iniciativas realizadas em parceria com o Governo do Estado serão detalhadas nesta sexta-feira (02), a partir das 10h, num dos painéis do Circuito Urbano realizado para dar visibilidade aos projetos desenvolvidos pelo ONU-Habitat no Brasil e na África Lusófona (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe).

A programação (disponível em www.circuitourbano.org) se estende por todo o mês e tem encerramento previsto para o 31 de outubro, o Dia Mundial das Cidades. Para acompanhar as apresentações, basta acessar o canal Circuito Urbano no YouTube.

AA

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