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Barrada pelo Planalto, infectologista critica insistência em cloroquina: “Estamos escolhendo de que borda da Terra plana vamos pular”

A infectologista Luana Araújo, convidada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para assumir a Secretaria Especial de Combate à Covid-19, disse, nesta quarta-feira (2), que deixou o cargo depois de apenas 10 dias porque não teve sua nomeação aprovada por outras instâncias do governo federal. A médica presta depoimento junto à CPI da Pandemia do Senado Federal.

Durante a oitiva, ela contou que, após alguns dias de trabalho na pasta antes de ser formalizada no posto, foi informada por Queiroga que infelizmente a nomeação “não ia passar pela Casa Civil” – ministério comandado pelo general Luiz Eduardo Ramos. Em seguida, afirmou não ter certeza se a instância correta era aquela.

De fato, as nomeações para cargos de segundo e terceiro escalão no governo federal passam pela Casa Civil e são assinadas pelo chefe da pasta e pelo ministro da área específica, no caso Queiroga.]

“Eu não estava oficialmente nomeada, mas fui apresentada e trabalhei como se estivesse nomeada. Inclusive, não recebi um centavo por esses dias de trabalho, paguei do meu bolso todos os deslocamentos de Belo Horizonte a Brasília, que é onde eu moro, e contribuí para o que era importante e necessário naqueles momentos”, afirmou.

“O que me foi dito é que existia um período entre a criação da secretaria e um processo chamado ‘apostilamento’ de cargos, que deveria ser feito para que a minha nomeação fosse publicada em Diário Oficial. A minha nomeação estava programada, segundo o que me foi dito, para uma segunda-feira, não saiu; aí ficou para uma terça-feira, não saiu; quando chegou na quarta-feira, eu já tinha entendido o que tinha acontecido, eu já tinha entendido que aquilo não ia funcionar. E eu trabalhei normalmente na quarta-feira, até que na quarta-feira à noite eu fui chamada e fui comunicada de que, infelizmente, com pesar, a minha nomeação não sairia”, disse.

Araújo não soube informar o motivo de sua nomeação não ter se concretizado. Após ser anunciada publicamente por Queiroga, reportagens mostraram a posição frontalmente contrária da infectologista ao chamado “tratamento precoce”, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e que havia sido motivo de atrito com os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Em postagens nas redes sociais, a médica afirmou que o Brasil estava na “vanguarda da estupidez mundial” ao defender esse tipo de terapia, que chamou de “neocurandeirismo”. Durante a sessão na CPI, ela reafirmou suas convicções e apontou para o fato de evidências científicas não balizarem o tratamento de infectados pelo novo coronavírus com medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina – que, segundo ela, sequer foi motivo de debate durante sua curta passagem pelo Ministério da Saúde.

“Isso nem foi assunto. Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse que um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular”, disse.

“A gente precisa desenvolver soluções, estratégias claras adaptadas ao nosso povo. A gente precisa ajudar o gestor, que neste momento é o ministro Queiroga, a conseguir os resultados que ele precisa, porque desses resultados dependemos todos nós. Então, ao invés de a gente fazer isso, com todo o respeito do mundo, nós estamos aqui discutindo algo que é um ponto pacificado para o mundo inteiro. Esse que é o perigo da nossa fragilidade e da nossa arrogância. É preciso que a gente aprenda com os outros lugares, com as outras instituições. A gente precisa ganhar tempo. Não tem cabimento isso”, complementou.

A médica, que disse sofrer diversas ameaças por suas posições e declarações, afirmou haver estudos randomizados que mostram aumento de mortalidade com o uso de cloroquina e hidroxicloroquina e que é preciso haver responsabilização por quem o propaga.

“Quando a gente transforma isso em uma decisão pessoal é uma coisa, quando você transforma isso numa política pública é outra. A autonomia médica faz parte da nossa prática, mas não é licença para experimentação. A autonomia precisa ser defendida sim, mas ela precisa ser defendida com base em alguns pilares: no pilar do conhecimento, da plausibilidade teórica do uso daquela medicação, do volume de conhecimento científico acumulado até aquele momento sobre aquele assunto, no pilar da ética e no pilar da responsabilização”, disse.

Questionada se havia relação entre suas posições sobre o tema, ameaças recebidas por apoiadores de Bolsonaro e o veto à sua nomeação, respondeu: “Eu não sei lhe responder essa pergunta, mas essa hipótese me deixa extremamente – eu não vou nem dizer frustrada – envergonhada, porque eu, a despeito de qualquer dissidência nesse sentido, em uma coisa que é tão pequena dentro de uma estratégia que é tão complexa com relação à pandemia, me coloquei à disposição, o meu conhecimento, a minha imagem, tudo isso à disposição do atual governo, para que, juntos, chegássemos ao resultado que a população precisa”.

Durante sua curta passagem pela pasta, a médica conta que enfrentou muitas dificuldades para a formação de uma equipe. “Infelizmente, por tudo que vem acontecendo, por essa polarização esdrúxula, essa politização incabível, os maiores talentos que a gente tem para trabalhar dentro dessas áreas não estavam exatamente à disposição para trabalhar nessa secretaria”, disse.

“Temos cérebros incríveis dentro deste País. Eu abri mão de muitas coisas pela chance de ajudar o meu País. Não precisava ter feito isso, mas fiz e estou aqui agora. Os senhores acham que as pessoas, de fato, que têm interesse em ajudar o País e competência para fazer isso, neste momento, se sentem muito compelidas a aceitar esse desafio? Não se sentem. Então, infelizmente, a gente está perdendo”, completou.

Para o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), a não nomeação de Luana foi uma questão política, por ela não compactuar com o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. “É inacreditável que alguém formada por uma das melhores universidades do mundo seja vetada. O ministro Queiroga disse aqui pra nós que teria autonomia pra nomear quem ele quisesse. Já está provado que não é verdade, ele mentiu aqui pra gente”, declarou.

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) questionou a “histeria” no parlamento sobre nomeações discricionárias. “É inquestionável a qualificação técnica da doutora Luana. Apesar da estranheza, todos sabem que em nenhum Poder Executivo existem nomeações automáticas. Nos municípios são feitas pelos prefeitos e nos estados e no governo federal pela Casa Civil. Não é razoável querer criminalizar. Há uma liberdade plena para nomear”, contrapôs.

Graduada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e epidemiologista mestra em saúde pública pela Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, a consultora em saúde pública para organizações internacionais, o nome de Luana Araújo havia sido celebrado em parte da comunidade médica após o anúncio de que integraria a nova secretaria de enfrentamento à Covid-19.

Infomoney

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