Por Leonardo Ferreira
O médico Emmanuel Fortes, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e representante de Alagoas na instituição, foi um dos membros que mais defendeu o parecer que dá autonomia aos médicos para prescreverem medicamentos do chamado “Kit Covid”. Filiado ao PSL e bolsonarista convicto, Emmanuel foi candidato a vice -prefeito de Maceió na chapa encabeçada pelo deputado estadual Davi Filho, em 2020.
A defesa do parecer ocorreu em reunião no mês de julho de 2020, a qual foi revelada recentemente por diligências da CPI da Covid. No encontro, o Ministério da Saúde consentiu que a rede Hapvida promovesse tratamento precoce contra o novo coronavírus, mesmo sem comprovação da eficácia. Além dos médicos do conselho, representantes da Unimed estiveram presentes na reunião.
O psiquiatra Emmanuel, formado na Escola de Ciências Médicas de Alagoas em 1977, chefiou o Cremal (Conselho Regional de Medicina de Alagoas) em três oportunidades. À época, o médico disse que a decisão foi “sábia”, endossando a prescrição de remédios como cloroquina e ivermectina.
“É conferir ao médico a autonomia de escolher a melhor conduta para seu paciente mesmo diante de evidências observacionais de alguns aspectos científicos, como a eficácia desses medicamentos em vitro, sem a comprovação em vivo”, defendeu Fortes, pontuando, no discurso, que os médicos sabem da responsabilidade e conhecem os efeitos colaterais.
Meses antes, o médico já havia defendido tratar a Covid-19 aos primeiros sintomas e foi convidado para a reunião pela secretária Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã cloroquina”. Lá, citou até que “o prefeito de Pilar [Renato Rezende], a minha cidade, adotou precocemente essas pesquisas, e os resultados são consideráveis”.
Recentemente o Ministério Público Federal abriu investigação para apurar a conduta do CFM por conivência com o uso do “Kit Covid”. O relator da CPI, senador Renan Calheiros, ainda tornou investigado o presidente do conselho, Mauro Luiz Ribeiro, também apoiador do presidente Jair Bolsonaro.
Segundo discussão de bastidores, há enorme possibilidade do relatório final indiciar e pedir o afastamento de membros do alto escalão do CFM.
A convergência de opiniões entre o governo e operadoras de saúde, especialmente a Hapvida, cuja denúncia é de que houve pressão nas unidades para promoção do kit, chamou a atenção das investigações. A omissão do CFM diante do caso Prevent Senior é outro fato que vem sendo criticado por associações e alvo de órgãos de controle.
A Folha tentou contato com Emmanuel via telefone, mas não obteve êxito até o fechamento da matéria.
Trajetória política
Nas redes sociais, Emmanuel não nega o apoio ao Governo Bolsonaro, intitulando- -se “médico atuante em prol do cidadão de bem”. No dia 7 de setembro, postou um vídeo na manifestação a favor do presidente pelas ruas de Maceió. Em 2018, tentou se eleger deputado federal pelo PRTB, mas apoiado na onda bolsonarista, com um total de 22.702 votos. Em 2012, ainda tentou o Executivo do Pilar, no entanto, sem sucesso.
Já no ano passado, o psiquiatra aceitou o convite de ser vice de Davi Filho, terceiro colocado no pleito pela Prefeitura de Maceió, quase alcançando o segundo turno. A família Davino que organiza a Funbrasil, entidade especializada em atendimento médico, sobretudo oftalmológico, e que recebe generosas emendas parlamentares para seu custeio, sendo explorada eleitoralmente nas campanhas dos Davino. No próximo ano, Emmanuel deve tentar se encaixar num cargo político novamente.

