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Afundamento na Jaqueira: sem laudo técnico, prefeitura nega ligação com a Braskem

Foto: Ascom Defesa Civil

Por Hemilly Souza

Após a pista da Rua Prefeito Joatas Malta de Alencar, no bairro Chã da Jaqueira, ser interditada devido ao rebaixamento do asfalto, a Defesa Civil de Maceió realizou uma vistoria no local, na terça-feira (20), e descartou relação com a petroquímica Braskem, responsável pelo afundamento de cinco bairros da capital devido à extração de sal-gema.

Segundo a Defesa Civil, a obstrução de uma galeria de águas pluviais por descarte irregular de lixo teria provocado movimentações do solo na região. A Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminfra) também esteve no local e confirmou que o ocorrido não tem relação com os danos causados pela mineração em Maceió.

No entanto, um estudo independente realizado por cientistas brasileiros e estrangeiros aponta que áreas fora do chamado “Mapa de Risco”, elaborado pela Defesa Civil de Maceió, apresentam movimentações do solo e podem sofrer afundamentos. Os pesquisadores pedem a revisão do mapa, mas o órgão municipal tem se recusado a considerar o relatório científico.

Para questionar o estudo, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, a Defesa Civil Nacional e o Serviço Geológico do Brasil utilizaram análises elaboradas por consultores contratados pela própria Braskem. Em 2019, esses mesmos consultores negaram a relação entre a mineração e o afundamento dos cinco bairros, atribuindo o fenômeno a “problemas estruturais da cidade”.

O relatório independente foi iniciado em fevereiro de 2025, após articulação do Núcleo de Proteção Coletiva da Defensoria Pública, que requisitou dados oficiais da Defesa Civil de Maceió para embasar a análise. Segundo os organizadores, o estudo segue padrões internacionais de rigor científico e independência metodológica.

A pesquisa foi conduzida por Mahdi Motagh (GFZ e Leibniz University Hannover, Alemanha), Djamil Al-Halbouni (University of Leipzig, Alemanha), Fábio Furlan Gama (INPE, Brasil), Marcos Eduardo Hartwig (UFES, Brasil) e Magdalena Vassileva (Leibniz University Hannover, Alemanha).

Em novembro, a Defensoria Pública de Alagoas (DPE) e o Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB) ingressaram com uma nova Ação Civil Pública contra o Município de Maceió e a Braskem, solicitando a revisão do Mapa de Risco e a adoção da metodologia científico-técnica apresentada no relatório independente.

A ação também pede a criação de um Mapa de Danos por Imóvel e o aprimoramento do monitoramento geotécnico das áreas afetadas. Caso a nova metodologia confirme o risco de afundamento do solo, as famílias deverão ser realocadas e os custos de reparação deverão ser arcados pela Braskem.

As atividades da Braskem resultaram na evacuação de cerca de 60 mil pessoas. Diante do cenário, moradores de regiões afetadas e não evacuadas, como os Flexais, seguem resistindo à chamada “revitalização” realizada pela empresa, enquanto órgãos fiscalizadores permanecem negando os riscos de novos afundamentos.

 

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