Por Maurício Sarmento*
O que acontece em Maceió não pode mais ser tratado como um conjunto de episódios desconectados, tampouco como falhas técnicas pontuais. O que está em curso é um crime continuado, marcado pela repetição sistemática de danos, pela ampliação constante das vítimas e pela naturalização do sofrimento humano. À luz do princípio da centralidade do sofrimento das vítimas, qualquer outra leitura é insuficiente e moralmente inaceitável.
A atuação da Braskem em Maceió segue um padrão que não pode ser suavizado por termos técnicos ou jurídicos: trata-se de uma lógica típica de serial killer ambiental. Não no sentido retórico banal, mas na definição precisa de quem provoca mortes sucessivas, ao longo do tempo, deixando um rastro contínuo de destruição. A diferença é que, aqui, as mortes são lentas sociais, econômicas, emocionais e ambientais e recaem sempre sobre os mesmos corpos: os das populações mais vulnerabilizadas.
O afundamento do solo, causado pela exploração predatória e irresponsável do salgema, foi o primeiro grande ato desse crime em série. Um crime anunciado, sustentado por alertas técnicos ignorados, que resultou na remoção forçada de bairros inteiros. Não foram apenas casas perdidas. Foram histórias interrompidas, redes de solidariedade destruídas, idosos que morreram sem elaborar o luto de suas moradias, crianças marcadas por deslocamentos forçados. Cada rachadura no chão correspondeu a uma fissura profunda na vida das vítimas.
Como todo serial killer, a violência não cessou no primeiro ataque. Avançou sobre os manguezais, com a devastação de quilômetros de áreas protegidas. Esse dano ambiental tem endereço social claro: pescadores e marisqueiras que perderam renda, alimento e dignidade. Quando o mangue morre, morre junto a segurança alimentar, a cultura tradicional e a autonomia de comunidades inteiras.
A sequência do crime alcançou a Lagoa Mundaú, um dos mais importantes sistemas lagunares do Nordeste. Sob suas águas concentra-se a maior parte das minas de salgema, cuja presença tem alterado artificialmente a salinidade da lagoa, levando à morte do ambiente marinho. O desaparecimento de peixes e crustáceos não é apenas um dado ecológico: é a falência do modo de vida de milhares de famílias que dependem da pesca artesanal para sobreviver. É a destruição lenta de uma identidade coletiva.
Mesmo após esse rastro de devastação, novas agressões continuam sendo impostas às populações atingidas, como a aplicação de inseticidas em áreas urbanas, sem critérios técnicos claros, sem transparência e sem controle social. Pessoas já profundamente feridas seguem sendo expostas a riscos químicos, tratadas como se suas vidas fossem descartáveis. O padrão se repete: dano, silêncio, impunidade e novas vítimas.
Por isso, é necessário afirmar com clareza: sem reparação integral às vítimas e ao meio ambiente, o crime continua. Reparação não é favor, nem compensação parcial. É reconhecimento pleno do sofrimento causado, reconstrução de vidas, recuperação ambiental verdadeira e garantia de não repetição. Qualquer acordo que ignore essa centralidade apenas legitima a continuidade da violência.
Colocar as vítimas no centro não é um recurso discursivo. É uma exigência ética, social e política. Enquanto o sofrimento das pessoas expulsas de seus territórios, dos pescadores privados de sua subsistência e das comunidades adoecidas não for plenamente reconhecido e reparado, Maceió seguirá sendo o palco de um crime em série e o serial killer seguirá agindo sob o manto da impunidade.
/Servidor Público, integrante do MUVB – Movimento Unificado das Vítimas da Braskem

