Moisés de Aguiar
Contribuição: George Peixoto
A presença de cristãos-novos (judeus convertidos forçadamente ao catolicismo) na família Aguiar é um fato histórico documentado, principalmente através de processos da Inquisição e estudos genealógicos sobre a colonização do Brasil e das ilhas atlânticas.
Origem e dispersão: O sobrenome Aguiar, de origem toponímica (nomes derivados de espaço geográfico, fauna animal e vegetal), foi adotado por diversas linhagens de cristãos-novos na Península Ibérica para facilitar a integração social e fugir da perseguição religiosa após o édito (ordem, decreto ou proclamação oficial) de 1497 em Portugal. Com origem judaica, a família Aguiar espalharam-se por Portugal, estabelecendo-se com preponderantemente nos Açores e na Madeira.
Brasil colonial: Para fugir das acusações da prática do criptojudaísmo (prática oculta e secreta da fé judaica), muitos membros da família migraram para o Brasil, fixando-se inicialmente em capitanias como Pernambuco e Bahia. Assim como outras famílias de origem sefardita (judeus originários da Península Ibérica -Espanha e Portugal), muitos Aguiar mantiveram a prática do judaísmo em segredo (criptojudaísmo) dentro do ambiente doméstico, fugindo das denúncias ao Tribunal do Santo Ofício.
Redes de comércio: Os cristãos-novos dessa linhagem frequentemente integravam redes comerciais que conectavam o Brasil à Europa e a outras colônias, utilizando os laços familiares como base de confiança para os negócios. Nessa conexão comercial, membros da família Aguiar em Pernambuco estavam frequentemente ligados a redes de “homens de negócio” que operavam entre Recife, Olinda e Lisboa.
Processos inquisitórios: Existem registros de indivíduos com o sobrenome Aguiar que foram investigados, presos ou degredados pela Inquisição sob acusação de “judaizar” (praticar ritos judaicos).
Legado genealógico: Muitos descendentes da família Aguiar no Brasil, especialmente no Nordeste, buscaram o reconhecimento da ascendência sefardita, assim denominados os judeus descendentes das comunidades que viveram na Península Ibérica. O reconhecimento era para processos de cidadania ou para resgate da história familiar. A presença de cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo) na família Aguiar é um fato histórico documentado, principalmente através de processos da Inquisição e estudos genealógicos sobre a colonização do Brasil e das ilhas atlânticas.
Ramo específico de Pernambuco (O “Berço” sefardita): Pernambuco foi um dos principais centros de recepção de cristãos-novos no século XVI devido à economia açucareira, que vivenciava o chamo ciclo do açúcar no país. O litoral norte pernambucano, foi um dos mais requisitados, com destaque para o povoado de Barra Grande, pertencente à Capitania de Pernambuco e que fazia parte da Freguesia de São Bento, Gamela e Peroba (atual região do litoral norte alagoano).
A região onde se insere Barra Grande, foi um importante ponto de ancoragem para grandes navios, fator favorável a sua colonização por famílias portuguesas, sobressaindo-se a família Barreto de Aguiar. O sobrenome Barreto, é um dos mais antigos troncos familiares brasileiros com presença consolidada na região de Pernambuco e áreas vizinhas desde o século XVI.
Migração e fixação regional: Membros da família Aguiar, migravam frequentemente de Pernambuco e Bahia para Sergipe acompanhando o deslocamento do eixo econômico do açúcar, surgido a partir de currais de gado entre os séculos XVIII e XIX que se transformaram em grandes plantações de cana-de-açúcar.
Formação étnica familiar: Um dos ramos mais proeminentes da família Aguiar é o do ilustre advogado e político Fausto de Aguiar Cardoso (1862-1906). A árvore genealógica de figuras como Júlio Barreto de Aguiar, Sebastião de Aguiar Machado Junior e Benjamim de Aguiar Machado confirma a presença consolidada da família no município sergipano de Divina Pastora no final do século XIX. Maruim, outro município sergipano, foi um grande centro para cristãos-novos (judeus convertidos) devido ao comércio portuário, formando uma integração da rede comercial e agraria, propicia, inclusive, para casamentos com outras elites locais.
Vulto representativo: Uma das figuras proeminentes dos descendentes da família Aguiar, foi Antônio Elias de Aguiar (meu bisavô). Pela sua importância, ajudou no final do século XIX a situar o ramo da família na região, especialmente em Divina Pastora.
Ele aparece listado como egresso da Faculdade de Direito do Recife (turma de 1872), centro acadêmico que formava a elite intelectual e política do Nordeste na época. Em decorrência da sua formação, ocupou o cargo de Juiz Municipal de Divina Pastora, sendo transferido posteriormente para exercer a mesma função em Laranjeiras, outro município de grande importância histórica e econômica em Sergipe.
A trajetória jurídica de Antônio Elias de Aguiar, guarda a marcada pela participação na última condenação a pena de enforcamento no Brasil. Quando da sua passagem na Comarca de Pilar – AL, foi o Promotor de Justiça responsável por acusar em júri o escravizado Francisco pelo assassinato a pauladas, ocorrido em 1874 de seus senhores, o capitão da Guarda Nacional João Evangelista de Lima e sua esposa, Josepha Marta de Lima.
Conexão com Divina Pastora e a herança familiar: A presença de um bacharel em Direito como Juiz, indica que este ramo da família Aguiar pertencia à elite letrada e proprietária agraria da Província de Sergipe, consolidando seu poder através da magistratura e da posse de terras.
Relações de parentesco: É muito provável que Antônio Elias tenha tido laços de parentesco ou proximidade política com a linhagem de Fausto de Aguiar Cardoso (também de Divina Pastora), uma vez que ambos faziam parte do reduzido grupo de advogados e magistrados que atuavam na região de Cotinguiba (Divina Pastora, Laranjeiras e Maruim).
Construção genealógica: Ana Eleutéria de Aguiar, é a peça que faltava para consolidar o ramo da elite agrária e intelectual de Divina Pastora no século XIX. Esposa de Antônio Elias de Aguiar, Ana Eleutéria (minha bisavó) pertencia a famílias tradicionais que, por meio de casamentos endogâmicos (entre parentes ou famílias de mesma classe), mantinham o patrimônio e a influência local. Ambos faziam parte do círculo social e político mais influente da região do Cotinguiba.
O sobrenome Eleutéria é recorrente em linhagens que praticavam a endogamia, um comportamento clássico das famílias cristãs-novas para não dispersar o patrimônio e manter tradições ocultas.
Marco temporal: Com o falecimento de Antônio Elias de Aguiar, a viúva Ana Eleutéria, como herdeira inventariante e matriarca, buscou reinvestir o capital da família em uma região com maior potencial de expansão açucareira, haja vista que as terras de Sergipe já estavam muito fragmentada.
O litoral norte de Alagoas, onde ficava as terras férteis no entorno do vale do rio Camaragibe, estava em pleno crescimento com a modernização dos engenhos. Contribuía também com a escolha, laços familiares remanescentes da família Barreto de Aguiar, presença marcante no litoral compreendido entre Alagoas e Pernambuco, notadamente pelos seus tentáculos no Povoado de Barra Grande, hoje fazendo parte do território alagoano do litoral Norte.
Dessa forma e trazendo consigo o patrimônio acumulado pela carreira do marido e pelas heranças das famílias Aguiar, Eleutéria, compra em São Luís do Quitunde -AL uma vasta e fértil propriedade rural de nome Engenho Guindaste, provavelmente na década de 1890.
A Compra do Engenho Guindaste: Ana Eleutéria, uma mulher viúva naquela época, demonstra o seu poder econômico, formado pelo patrimônio acumulado decorrente da carreira do marido e pelas heranças agrarias das famílias Aguiar e Eleutéria. A compra do engenho, é um exemplo clássico de como famílias de origem cristã-nova preservando seu status através da terra.
Com visão avançada e senso empreendedor, Ana Eleutéria expandiu o ramo de negócio do açúcar para uma região prospera à época, em pleno crescimento com a modernização dos engenhos, onde seus filhos poderiam prosperar como senhores de engenho. Muito embora, seus filhos tenham seguido a lógica das elites intelectuais da época, movendo-se principalmente, para centros urbanos maiores afim de adquirirem formação acadêmica e de exercerem profissões liberais.
Linha sucessória: Augusto Aguiar como filho de Antônio Elias de Aguiar e Ana Eleutéria de Aguiar, a partir do seu ramo familiar em Divina Pastora, ganha uma linha sucessória alagoana. Dessa forma, coube a Augusto Aguiar (meu avô), o gerenciamento do Engenho Guindaste e consequente preservação da tradição agraria da família, mantendo as propriedades rurais como fonte de renda.
Constituindo-se em exceção familiar com relação aos irmãos, Augusto Aguiar se estabelece em Alagoas e incorpora a dinâmica local, que era fortemente baseada na economia do açúcar, além de ter constituído família.
Localizado no município de São Luís do Quitunde o Engenho Guindaste levou Augusto Aguiar a estabelecer raízes não só no âmbito das unidades produtivas que compuseram a malha açucareira da região norte de Alagoas, como também empreendeu ampla expansão na aquisição de terras em lugarejos do litoral no sentido Maceió, adquirindo inclusive, imóveis na capital alagoana.

