Os brasileiros e seus descendentes que vivem no Paraguai estão entre os clientes afetados pela interrupção das operações do Ueno Bank. Sem acesso aos depósitos, quem dependia apenas da instituição enfrenta dificuldades para movimentar dinheiro, enquanto clientes com contas em outros bancos conseguiram reduzir o impacto sobre suas finanças. A crise no banco digital levou o presidente Santiago Peña a renunciar ao cargo.
O banco, que atende 40% da população do país, fechou as portas e bloqueou o acesso de clientes a contas e investimentos, após ser considerado insolvente. Uma instituição financeira é considerada insolvente quando não consegue honrar seus compromissos. Para evitar que a situação piorasse, o Banco Central (BC) do Paraguai interveio no Ueno.
O episódio levou à prisão preventiva de oito executivos ou ex-executivos do banco e à renuncia do presidente e mais dois diretores da autoridade monetária, além de desencadear uma crise política. Centenas de paraguaios foram às ruas exigir que recebam o dinheiro imediatamente. A Câmara dos Deputados analisa nesta quinta-feira um pedido de impeachment do presidente Santiago Penã.
A paraguaia Isabela, de 21 anos, transferiu seu dinheiro para o Itaú antes da paralisação, depois de ouvir rumores sobre a situação do banco. Sua mãe e sua irmã, porém, mantiveram os recursos na instituição e ficaram com os valores bloqueados. Dona de uma agência de marketing e moradora de Santa Rita, ela é filha de um brasileiro que se mudou para o Paraguai.
— A situação é bem triste, porque os boatos de que o banco iria fechar já circulavam há meses. Eu acreditei, abri uma conta no Itaú e coloquei todo o meu dinheiro lá. Mas muitos não acreditaram, porque era um banco muito grande, e acabaram ficando sem o dinheiro. Minha mãe e minha irmã são esse caso — relata.
Já o engenheiro de software Dellean Santos Teixeira, de 36 anos, também tem conta no Ueno, mas diz que a interrupção não comprometeu tanto suas finanças. Carioca, ele mora no Paraguai há três anos com a esposa e trabalha desenvolvendo sistemas para bancos nos Estados Unidos. Seus recursos estão distribuídos entre várias instituições, principalmente fora do país.
Em um grupo de brasileiros do qual participa, porém, ele acompanha situações diferentes.
— Quem era empresário está de boa, porque tem fluxo de caixa e também várias contas. Tem uma galera que só tinha Ueno e ficou apertada — conta.
Segundo Dellean, o saldo de sua conta voltou a aparecer no aplicativo na quarta-feira, embora ele ainda aguardasse a possibilidade de movimentar os recursos.
— A expectativa é que em pouco tempo a gente consiga mover os fundos — afirma.
Isabela e Dellean explicam que a facilidade para abrir e operar uma conta ajuda a explicar como o banco conseguiu chegar a 2,9 milhões de clientes, o equivalente a 40% da população do país, estimada em 7,1 milhões. Isabela conta que escolheu a instituição para sua primeira conta bancária, há três anos.
— Você fazia tudo digital no começo. Na época em que abri, não tinha nem uma análise de perfil bancário. Era tirar uma foto do seu rosto, tirar uma foto segurando sua cédula de identidade e estava liberada a conta — diz Isabela. — A facilidade foi a maior isca deles.
Ela compara a experiência com a de bancos tradicionais do Paraguai, nos quais, segundo ela, a abertura de conta pode levar até uma semana e exige documentos que comprovem a origem da renda.
Dellean também aponta a menor burocracia como um diferencial e explica que as exigências de comprovação de renda de outras instituições dificultam o acesso de trabalhadores informais aos serviços financeiros. Ele conta que abriu contas em vários bancos assim que conseguiu sua documentação no país.
— No Ueno, a gente faz tudo pelo aplicativo, sem precisar ir à agência fisicamente — afirma. — O banco aqui cria relacionamento e pede muita comprovação de origem do dinheiro. Quem trabalha informal não tem como comprovar.
Isabela relata que a facilidade também fazia o Ueno ser indicado a brasileiros recém-chegados ao Paraguai. Mesmo tendo retirado suas economias, a empresária ainda enfrenta dúvidas sobre o cartão de crédito que mantinha no Ueno. A fatura, segundo ela, vencia na quarta-feira, mas a indisponibilidade dos serviços impedia o pagamento.
— Não sei para quem eles vão vender essa dívida, como irão me cobrar. Com juros pelo vencimento? Sem juros? Porque hoje vencia o cartão e não tenho como pagar — pergunta.
Ela conta que, pouco antes da interrupção das operações, o banco ainda enviava notificações incentivando novos depósitos com a promessa de 50% de cashback em compras.
— Eles estavam fazendo “promoções” desesperadas para que as pessoas depositassem mais dinheiro lá.
Enquanto acompanha a situação da mãe e da irmã, Isabela cobra esclarecimentos e defende que o caso tenha repercussão fora do país.
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