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Filme sobre Jair Rodrigues cresce quando mostra mais do que o sorriso do cantor

2 de outubro de 2020
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Filme sobre Jair Rodrigues cresce quando mostra mais do que o sorriso do cantor
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♪ Filme em exibição online na 25º edição do festival de documentários É tudo verdade com sessões programadas para as 21h de 1º de outubro e para as 15h de 2 de outubro de 2020.

♪ Cantor identificado pelo sorriso radiante, marca visível da alegria transparente nas interpretações do artista paulista, Jair Rodrigues (6 de fevereiro de 1939 – 8 de maio de 2014) foi um homem alegre. “Nunca o vi triste”, fazem coro vários nomes entrevistados para o documentário Jair Rodrigues – Deixa que digam (2020).

Exibido em primeira mão na 25ª edição do festival de documentários É tudo verdade, o filme de Rubens Rewald perfila Jair Rodrigues com afeto e flui bem dentro de formato convencional estruturado pela alternância de depoimentos elogiosos com imagens de arquivo.

Algumas imagens são raras – como a que mostra o cantor em show na casa parisiense L’Olympia, na França dos anos 1970 – e têm o poder de seduzir espectadores fascinados por material de arquivo. Contudo, o roteiro de Rubens Rewald e Rodolfo C. Moreno cresce sobretudo quando mostra – ou pelo menos tenta mostrar – mais do que o sorriso-padrão de Jair Rodrigues.

Delicado assunto abordado pela viúva do cantor, Claudine Melo Rodrigues, a perda da primeira filha do casal – com menos de um ano, em decorrência de complicações de anomalia congênita – é a senha para desvendar o temperamento de um homem que também carregar tristezas, mas não se permitia chorar mágoas em público.

A opção por embutir a dor também é sugerida por depoimento do irmão de Jair, Jairo Rodrigues, que relata preconceitos raciais sofridos pela família criada no interior de São Paulo.

De caráter apolítico, Jair Rodrigues jamais expôs tais preconceitos em público, assim como jamais tomou partido na luta contra a ditadura durante o período áureo de carreira que – após expedientes cumpridos pelo cantor em restaurantes e boates – ganhou impulso em 1964 com a gravação da música Deixa isso pra lá (Edson Menezes e Alberto Paz, 1964).

“Foi o pré-rap brasileiro”, conceitua o amigo Rappin’ Hood ao falar sobre a música, cujo refrão contém o verso que subintitula o filme de Rubens Rewald. O diretor parte justamente da gravação de Deixa isso pra lá para traçar painel cronológico da trajetória de Jair Rodrigues.

O documentário escapa do padrão quando expõe Jair Oliveira, filho do cantor, dizendo falas do pai como se fosse o próprio Jair Rodrigues. A interpretação é convincente. Oliveira reproduz os trejeitos e o tom expansivo de Rodrigues, mas essas cenas acabam ficando soltas ao longo do roteiro encadeado com imagens do cantor em ação, dando a voz afinada e calorosa a músicas com O conde (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1969) e Canto chorado (Billy Blanco, 1968), apresentada por Jair na I Bienal do Samba (1968).

O retrato do artista em Jair Rodrigues – Deixa que digam soa extremamente positivo. Contudo, o diretor jamais pode ser acusado de maquiar essa imagem porque Jair Rodrigues foi de fato homem de bem, carismático, com o poder raro de angariar simpatias unânimes. E de reverter expectativas desfavoráveis.

O filme mostra, por exemplo, o descrédito inicial do compositor Theo de Barros com a notícia de que Jair tinha sido o intérprete sugerido para defender Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros, 1966) em célebre festival da canção. Até aquele momento, Jair era cantor identificado com o samba, gênero que seria dominante na discografia do artista (a sequência com capas dos discos do intérprete reforça essa tendência). Pois bastou o compositor ouvir a moda da viola na voz de Jair para mudar de ideia.

“No primeiro ensaio, ela já conquistou todo mundo. Ele assimilou o sentido político da letra. Vestiu a camisa”, lembra Theo de Barros, em depoimento corroborado pela imagem de Jair hipnotizando o público ao cantar Disparada.

O pleno entendimento das canções pelo intérprete é enfatizado quando o assunto é A majestade o sabiá (Roberta Miranda, 1985), o hit sertanejo que abriu caminho para a carreira de Roberta Miranda – “Devo muito ao Jair”, ressalta a cantora – e que, inicialmente esnobado por Chitãozinho & Xororó, acabou parando na voz e no disco de Jair Rodrigues em gravação feita com a participação da dupla. Foi a música que devolveu o sucesso popular ao cantor, àquela altura já menos em evidência.

O descaso da mídia com o cantor nos anos 1980 e 1990, aliás, é posto em pauta no filme pelo filho Jair Oliveira. Contudo, mágoas e ressentimentos são assuntos praticamente descartados no roteiro. Em sintonia com as boas vibrações do cantor, Rubens Rewald enfoca sobretudo o sorriso e a energia de Jair Rodrigues, ainda que paradoxalmente o documentário se eleve – cabe enfatizar – quando tenta desvendar o que havia por trás desse sorriso.

G1/Mauro Ferreira

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