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Redação

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Eleitores relatam menos brigas em grupos de família do WhatsApp do que em 2018

11 de novembro de 2020
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Eleitores relatam menos brigas em grupos de família do WhatsApp do que em 2018
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Após uma eleição marcada por muitos atritos em grupos de amigos e familiares em 2018, uma nova ida às urnas se aproxima. Mas, aparentemente, as eleições municipais chegaram em contexto mais amistoso – ao menos nas redes sociais.

No Twitter, por exemplo, o número de citações a “briga no grupo da família” está bem menor que em 2018, quando o então candidato Jair Bolsonaro ficou à frente de Fernando Haddad, em uma disputa marcada pela polarização.

Em 2020, as rivalidades municipais são menos passionais e o resultado pode ser visto nas redes sociais. Tanto que o citado “briga no grupo da família”, neste ano, teve grande alta apenas em março. O mês marcou o início da pandemia de coronavírus no Brasil, quando as políticas de saúde do governo Bolsonaro também começaram a ser discutidas.

Também em março, houve pico no termo “saí do grupo da família”. Mas, diferentemente dos relatos sobre brigas, os comentários de fuga dos grupos continuaram em alta ao longo dos meses seguintes. Em 2018, o pico foi verificado apenas às vésperas da votação.

“Não é que diminuiu o clima hostil, mas diminuiu o fogo da fervura política, de um lado. E, de outro lado, as pessoas não estão brigando. Não porque acharam algo melhor pra fazer, mas porque estão simplesmente cancelando umas às outras, um mecanismo muito primitivo, muito narcísico de lidar com diferença, infelizmente”, aponta Pedro de Santi, psicanalista e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), sobre a fuga dos grupos de WhatsApp.

“Sair do grupo de família não é encontrar um ponto de maior paz. Pelo contrário. É algo mais primitivo, algo mais lamentável. É simplesmente eliminar o contato com quem pensa diferente”, afirma o professor.
Segundo De Santi, os algoritmos das redes sociais fazem um filtro, e as pessoas acabam recebendo apenas conteúdos semelhantes aos pensamentos delas, criando uma bolha.

“Quando a gente se encontra com alguém que pensa diferente da gente, a gente toma um susto muito grande”, diz. “As mídias sociais têm criado mais bolhas de opiniões fechadas. E têm deseducado a gente para conviver com conflito e com democracia.”

Sem brigas
Ainda assim, a fuga de grupos tem sido opção para muitas pessoas que preferem ficar longe de atritos com amigos e familiares.

Alguns fizeram o movimento ainda em 2018 e não retomaram contato até hoje, mesmo havendo tentativas. É o caso de Mariana*.

“Por causa dos atritos das eleições presidenciais, agora só falo sobre isso com quem está do mesmo lado que o meu”, diz ela. “Acho lamentável as brigas com quem temos carinho. Mas, sinceramente, fica difícil estar perto, conviver, com quem pensa tão diferente de você. O negócio é nem falar sobre este assunto com todos.”

“Não me arrependo dos desentendimentos que tive. Não provoquei, apenas defendi minha posição porque vieram me questionar”, explica ela, sobre atritos com alguns colegas. Em 2018, ela chegou a ser excluída de alguns grupos de Facebook dos quais fazia parte.

Agora, preferiu não tecer comentários nas redes. “Resolvi não ficar falando nada. Somente com quem sei que está do mesmo lado que o meu. E também porque acho que tá bem ruim de candidato”, cita ela, que mora na cidade de São Paulo.

Já no grupo de família, a decisão conjunta foi evitar o tema “política”. “Quem é do mesmo lado, manda mensagens sobre política no privado pra quem tá do mesmo lado.”

‘Guerra generalizada’
A opção pela proibição do tema no grupo da família da estudante de arquitetura Victória Carvalho, de 21 anos, surgiu após muitas discussões calorosas em 2018 com um tio. Ele chegou a tirá-la do grupo por discordar de suas opiniões.

“A primeira vez que ele me tirou, a gente continuou brigando no privado, e ele foi lá e me bloqueou. Aí, minha vó ficou muito brava com a situação, porque falou que isso não era motivo para a minha família brigar e me colocou de volta no grupo”, conta.

“Voltei para o grupo, a gente falou que não ia mais falar de política. Só que teve um dia em que o abençoado do meu tio foi lá de novo e começou a falar várias outras coisas sobre o atual presidente, que na época estava em eleição. Eu comecei a ficar nervosa, mandei algumas coisas contra os argumentos dele, contra tudo o que ele estava falando – e ele ficou muito bravo, muito bravo. Chegou a me ofender”, relembra Victória.

Nervosa com a situação, a universitária reiniciou a briga. Ocorreu, então, o que a jovem descreve como “uma guerra coletiva” – e ela foi uma vez mais retirada do grupo.

“Ele [o tio] ficou uns seis meses sem falar comigo. E, aí, todo mundo foi removido daquele grupo e foi criado um novo grupo da família em que a regra principal é: não pode discutir política”, explica.

O tema “eleições” foi banido, mas Victoria acredita que outro fator também tenha interferido no clima de paz na rede durante as eleições municipais: no grupo há uma mistura de pessoas que moram em São Paulo e parentes que vivem em outras regiões do Brasil (“por isso que acho que agora não está tendo guerra”).

‘Gasto energia com o que controlo’
Marco Aurélio Xavier deixou de seguir diversas pessoas nas redes sociais e saiu de um dos grupos do qual fazia parte durante as eleições de 2018.

“Não cheguei a brigar ou discutir. Consegui levar na conversa. Mas me decepcionei com muita gente. E agora vejo que estão arrependidos”, diz ele, que optou por mudar sua postura diante do tema.

“Nessas eleições estou na paz, mas por dois motivos: resolvi gastar meu tempo e minha energia em coisas que eu controlo. Alta do dólar, preço da soja, jornais, futebol, novelas, Trump, Bolsonaro, ‘Lula Livre’ – não me interessa mais. E tenho obtido ótimos resultados com essa virada de chave. Tenho lido livros – em quatro meses, já li quatro livros –, estudado sobre minha profissão e dado mais valor a quem tenho por perto.”

Xavier diz que a decisão de mudar de comportamento não foi exatamente reflexo dos atritos do passado. Segundo ele, isso decorre da experiência da quarentena.

Arrependimento ou despolarização?
Para Pedro de Santi, da ESPM, as mudanças de postura não são consequência direta de arrependimento com relação às brigas de 2018. De acordo com ele, trata-se mais de “desidealização dos polos” políticos, que “produziram um enfraquecimento relativo no clima hostil que movimentou aquelas eleições de dois anos atrás”.

“Não acho que tenha havido um amadurecimento, não – infelizmente, não. O que houve foi uma intensidade menor do ambiente. O ambiente está menos intenso, e isso gera uma civilidade um pouquinho melhor, um nível de briga um pouquinho diminuído. Não acho que seja uma eleição de mais paz, mas de emoções mais brandas. É diferente.”

* A entrevistada pediu para não ter o nome divulgado.

G1

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