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Igor Benevenuto é o primeiro árbitro Fifa a se declarar gay

8 de julho de 2022
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Igor Benevenuto é o primeiro árbitro Fifa a se declarar gay

Foto: Marcos Ribolli

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O árbitro Igor Benevenuto se declarou homossexual em entrevista ao podcast ‘Nos Armários dos Vestiários’, uma série jornalística que detalha a homofobia e o machismo no futebol brasileiro. O mineiro, de 41 anos, é o primeiro juiz do quadro da Fifa a manifestar a homossexualidade publicamente.

Leia o depoimento de Igor Benevenuto:

“O futebol é um esporte que eu cresci odiando profundamente. Não suportava o ambiente, o machismo e o preconceito disfarçado de piada. Para sobreviver na rodinha de moleques que viviam no terrão jogando bola, montei um personagem, uma versão engessada de mim. Futebol era coisa de ‘homem’, e desde cedo eu já sabia que era gay. Não havia lugar mais perfeito para esconder a minha sexualidade. Mas jogar não era uma opção duradoura, então fui para o único caminho possível: me tornei árbitro.

Tenho 41 anos, 23 deles dedicados ao apito. Até hoje, nunca havia sido eu de verdade. Os gays costumam não ser eles mesmos. Limitando nossas atitudes para não desapontar a expectativa do mundo hétero. Passei minha vida sacrificando o que sou para me proteger da violência física e emocional da homofobia. E fui parar em um dos espaços mais hostis para um homossexual. Era por saber disso que eu odiava o futebol.

Durante um bom tempo, precisei participar dos rachões de rua porque fazia parte do teste de pertencimento de quase todo moleque da minha época. Para ter amigos, eu precisava ser hétero, e para ser hétero era obrigatório ser esse cara do futebol. Então, me escalava e interpretava meu papel. Família e amigos me carregavam para o estádio em todas as oportunidades. Era uma tortura, mas ia a jogos do Cruzeiro, Atlético-MG, América-MG… Vestia todas as camisas e, ao mesmo tempo, não vestia nenhuma. Não havia nenhum significado nisso. Em casa, o povo é dividido, cada um torce para um clube, e só eu não tinha esse tipo de amor. Vivia isolado, um moleque triste, com um buraco no coração.

Eu namorei meninas, tentei enganar meus instintos. A religião era muito presente na minha família, e por isso cresci dentro da igreja. E lá está registrado nas escrituras da Bíblia: homem que se deitar com outro homem é pecador. Uma imposição para que sejamos héteros. Na minha igreja até existia o debate, um interesse em entender o universo LGBTQIA+, mas ainda assim ser o que eu sou é considerado errado e, sendo errado, haverá punições divinas.

A Bíblia só deixa duas opções: casamento heterossexual ou uma vida celibatária. Tudo que seja diferente disso é abominável. Por um tempo, acreditei que havia algo de muito errado comigo, porque, apesar de respeitar a igreja, essa doutrina falhava miseravelmente com o que eu sentia. Eu continuei igual, só que sem o direito de me expressar. Um Igor cheio de camadas.

A Copa do Mundo de 1994 foi um estalo para mim. Foi o primeiro campeonato que parei para assistir, por obrigação, é claro. Brasil x Rússia, estreia do Brasil. Olhei a televisão e me interessei imediatamente e exclusivamente pela figura diferente que estava em campo: o árbitro. Foi justamente naquele ano que a Fifa aprovou a mudança dos uniformes dos juízes para o Mundial dos Estados Unidos. O preto deu lugar a cores vibrantes — camisas prateadas, amarelas e rosa. Fiquei enfeitiçado pelo combo — as cores e o cara que controlava tudo. No dia seguinte, na pelada com os meninos, avisei que não iria mais jogar. Queria comandar a partida, e foi assim que comecei a apitar e ressignificar minha relação com o futebol.

Meu primeiro apito veio de brinde em uma caixinha de maria-mole. Quem tem mais de 40 anos e gosta desse doce vai lembrar! Para conseguir cartões, tive de ser criativo e trabalhar com o que eu tinha em casa. Extraí retângulos perfeitos das embalagens de catchup e mostarda abandonadas na geladeira.

Eu queria uma camisa de árbitro de futebol, daquelas chamativas da Copa, mas na época era apenas um adolescente sem emprego de uma família simples e periférica, que não tinha a menor condição de bancar um mimo desse. Eu ficava maluco, queria a camisa, um apito e os cartões oficiais, que vinham em uma caderneta de couro preta. Eu ia todo santo dia a uma loja de esportes na minha cidade para paquerar esse kit pela vitrine. Vendi picolés de fruta e muito papelão para conseguir comprar aquele trio de glória.

GE

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