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Pré-candidato ao Senado, Arthur Lira compra jatinho milionário

8 de abril de 2026
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Pré-candidato ao Senado, Arthur Lira compra jatinho milionário

Reprodução

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O deputado federal Arthur Lira (PP-AL) comprou um jatinho por US$ 1 milhão (R$ 5,7 milhões, pela cotação do câmbio na data da operação), em sociedade com um empresário do ramo de máquinas e equipamentos agrícolas, após deixar a presidência da Câmara em 2025.

A aeronave foi registrada em nome de uma empresa de sociedade anônima, modelo em que a identidade dos sócios fica oculta, sem divulgação.

Lira e seu sócio, o empresário José Augusto Araújo Sousa Junior, confirmaram à Folha serem proprietários da ACZ Aviação.

Eles afirmaram que a aeronave foi comprada em um regime de cotas, para uso compartilhado, que não há relação com contratos públicos e que ela foi adquirida legalmente, com todos os impostos pagos e registros nos órgãos competentes. De acordo com o parlamentar, eles são os únicos sócios.

A empresa foi criada em 18 de fevereiro de 2025, logo após o ex-presidente da Câmara deixar o cargo, e adquiriu o avião por menos da metade do valor desembolsado pela antiga proprietária. A Atrium Participações comprou o avião em 1º de abril de 2024, exato um ano antes da venda para Lira, por R$ 13 milhões.

A ACZ Aviation comprou o jatinho em 1º de abril de 2025 de forma parcelada por cerca de R$ 5,68 milhões, na cotação do dólar da época. De acordo com Lira, o valor menor ocorreu porque a aeronave precisava de manutenção e troca de peças. A Atrium afirmou que a vendeu por este preço “em razão da necessidade empresarial de reforço de caixa para custeio de suas atividades”.

Nas eleições de 2022, quando se reelegeu para mais um mandato na Câmara, Lira informou à Justiça Eleitoral possuir um total de R$ 5,965 milhões em bens (ou R$ 7 milhões em valores corrigidos pela inflação do período).

A Atrium é uma holding de propriedade dos irmãos Luiz Felipe Guerra de Andrade Hernandez e Ruy Guerra de Andrade Hernandez, donos da Lotus, uma construtora de Brasília especializada em prédios de luxo e de alto padrão. Ambos entraram em 2022 na lista Under 30 da revista de negócios Forbes Brasil, como jovens destaques em seu setor.

“No período em que a aeronave esteve sob a posse da Atrium Participações, não houve qualquer tipo de utilização pelo parlamentar em questão. Ainda, destaca-se que os sócios da Atrium Participações e os sócios da Lotus não possuem e nunca tiveram nenhum tipo de interação com o sr. Arthur Lira”, afirmou a empresa em nota.

A aeronave comprada pelo ex-presidente da Câmara é um Raytheon Aircraft 400A, modelo listado por preços entre R$ 10 milhões e R$ 35 milhões nos anúncios consultados pela Folha. Ela tem capacidade para até oito passageiros e é conhecida por atingir uma alta velocidade de cruzeiro, ultrapassando 800 km/h.

Seu alcance é de 2.300 km, o que permite fazer o trajeto entre Brasília e Maceió. Cada trecho custa, apenas em combustível, cerca de R$ 11 mil, fora os gastos com taxas aeroportuárias e contratação de pilotos. O aluguel de um modelo como esse em empresas de táxi aéreo custa cerca de R$ 220 mil por deslocamento.

A Folha descobriu a existência da aeronave ao verificar que Lira não emitia passagens em aviões de carreira (o que daria direito a reembolso pela Câmara) e obter por LAI (Lei de Acesso à Informação) o registro dos voos realizados entre Brasília e Maceió em 2025.

A reportagem monitorou os aviões cujo comportamento se encaixava na rotina do parlamentar. O jatinho adquirido pelo ex-presidente da Câmara fez 44 voos entre Maceió, cidade onde Lira vive, e a capital federal no ano passado.

Em 10 de março, por exemplo, Lira chegou à capital federal vindo de Maceió, conforme verificou a reportagem após acompanhamento por meio de um site específico, já que esse avião não aparece em páginas convencionais a pedido de seu dono.

A empresa na qual ele está registrado, a ACZ Aviação, foi fundada em 18 de fevereiro de 2025 com o nome de AFL Ltda por dois advogados mineiros especializados em criar empresas de prateleira, Guilherme Leroy e Lucas Pereira.

Dois dias depois, em 20 de fevereiro, eles aumentaram o capital social da companhia de R$ 1.000 para R$ 10 milhões, mudaram o nome para ACZ Aviação e nomearam a advogada Maria Claudia Bucchianeri Pinheiro como diretora. Além disso, a empresa passou a ser uma sociedade anônima, o que permite ocultar os sócios.

Nesse momento, informou Leroy à Folha, a empresa foi vendida para os atuais donos. Ele disse que não poderia revelar o comprador.

Lira diz que pediu a Bucchianeri, sua advogada de confiança, que fizesse os procedimentos burocráticos sobre a empresa. Ela foi indicada pelo parlamentar para uma vaga de ministra substituta no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2021, cargo que ocupou por dois anos. Hoje, ela é uma das coordenadoras jurídicas da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.

A advogada ficou pouco tempo na ACZ Aviação. Em 31 de março de 2025, poucos mais de um mês depois de ser nomeada diretora, ela foi substituída pelo empresário José Augusto Araújo Sousa Junior. Ele é dono da Maqcampos, revendedora dos equipamentos agrícolas da John Deere no Centro-Oeste.

A Maqcampos é dona de uma outra aeronave, que é utilizada por José Augusto.

A empresa recebeu mais de R$ 100 milhões em contratos com o governo federal, de ministérios como o da Agricultura e o do Desenvolvimento Regional, que controla a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). Cerca de R$ 15 milhões vieram de repasses de emendas parlamentares -nenhuma delas para Alagoas.

Em nota à Folha, José Augusto afirmou que a ACZ comprou a aeronave para uso compartilhado entre seus acionistas, com rateio de despesas, “como é de costume nesse setor”, e que a companhia não tem relação com qualquer outra empresa.

“Sou um dos acionistas, uso a aeronave e sou o responsável pela administração da empresa, pois tenho experiência com aeronaves. O deputado Arthur Lira também é acionista da sociedade e, nessa condição, dela faz uso de forma legítima. Tudo regular, declarado e extremamente comum”, afirmou na nota.

Lira afirmou que não há nada de ilegal ou escondido na compra. “É um avião de 20 e poucos anos, cabe dentro do meu Imposto de Renda. Tudo limpo e declarado”, disse o parlamentar, que é também produtor rural. “José Augusto é um amigo pessoal, da minha vida privada. Ele assumiu como diretor por ter outras aeronaves e entender disso”, afirmou.

Enquanto presidente da Câmara, o deputado tinha à sua disposição jatos da FAB (Força Aérea Brasileira) para seus deslocamentos. Aliados afirmam que o cargo torna a pessoa famosa e que o uso de voos de carreira acaba por causar riscos de constrangimentos em aeroportos, assédio ou ofensas de outros passageiros.

/Folha de S.Paulo

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