Por Carlos Madeiro – Colunista UOL
O ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), anunciou no sábado sua candidatura ao governo de Alagoas, abdicando do Senado após uma semana turbulenta de reviravoltas que o levaram a disputar cadeira do executivo estadual. Para entender o final dessa história é preciso voltar à manhã da última segunda-feira.
Nesse dia, a Polícia Federal cumpria mandados no Instituto de Previdência dos Servidores Municipais de Maceió, o Iprev, para investigar as suspeitas no aporte de R$ 97 milhões feito ao Banco Master.
JHC foi a Brasília nesse dia e pediu um encontro com o presidente Lula, que o recebeu fora da agenda. Ali, informou que estava desistindo da candidatura ao governo para disputar o Senado. Parecia ter entendido a ida de PF como um “recado” de Brasília.
Não há relatos sobre qual foi a reação de Lula, mas sabe-se que, após essa reunião, JHC comunicou a decisão de disputar o Senado ao presidente nacional do PSDB, Aécio Neves —que recebeu com surpresa e inicial contrariedade à mudança, mas ressaltou que daria liberdade para que ele decidisse.
O ex-prefeito se defendeu para Aécio dizendo que, sem disputar o governo, conseguiria se empenhar nas candidaturas ao Congresso, prometendo entregar dois deputados federais ao PSDB.
Além disso, citou que a saída da disputa ao Senado do deputado Alfredo Gaspar (PL), para ser candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro (PL), acabou sendo um “convite” para uma eleição aparentemente mais tranquila.
Mas daquela segunda-feira em diante, JHC sumiu do mapa. Parecia querer guardar segredo até a última hora, sem fazer nenhuma agenda pública, como era rotina quase diária desde abril. Nem aliados próximos conseguiam contato, e um suspense pairou no ar —JHC sequer foi a convenção estadual do partido no dia 5.
Até que na quinta-feira a informação da desistência de JHC vazou. Arthur Lira (PP-AL), aliado desde 2022 e que estava pronto para coligar na chapa e apoiar o tucano, soube da decisão não por JHC ou pessoas próximas dele, mas pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que lhe contou sobre a reunião com Lula.
Lira ficou extremamente irritado, já que a vinda para disputa ao Senado colocaria a eleição dele em jogo —a disputa em Alagoas ainda inclui o senador Renan Calheiros (MDB), que vai tentar a reeleição.
A partir daí, teve início uma intensa uma pressão não só de Lira —que procurou o PSDB para reclamar da mudança de JHC—, mas de quase todos os aliados, que levaria JHC a mudar de decisão no dia seguinte.
Cenário piora com foto
Na quinta-feira, logo após o encontro de Lula e JHC vazar, uma imagem viria a ser determinante para nova reviravolta: Renan Filho (MDB) postou foto após encontro com o presidente Lula. Isso acabou sendo a munição final para os aliados, que não tinham outro nome competitivo para competir contra Renan àquela altura.
Um discurso era uníssono: JHC estaria entregando a eleição do governo para Renan em acordo com Lula. Os bolsonaristas, em especial, se revoltaram com a decisão. “Seria um suicídio político”, disse o vereador e presidente do PL em Maceió, Leonardo Dias, comentando na sexta passada sobre a desistência de concorrer ao governo.
Nos bastidores, percebeu-se a repercussão do recuo de JHC foi maior que o esperado. A reação da base foi “forte demais”, disse JHC aos mais próximos.
Na sexta-feira, JHC viu que não era fácil manter a decisão, já que o recuo àquela altura, após os muitos apoios conquistados para disputar o governo, geraria um efeito contrário: os líderes políticos locais não iriam apoiá-lo, e ele inevitavelmente seria chamado de traidor.
O cálculo eleitoral ficou apertado: se antes ele era apontado como favorito ao Senado, o recuo o deixaria só em uma disputa acirrada contra os dois maiores nomes da política alagoana.
JHC mudou então o discurso e decidiu se acertar com Lira, apesar do clima de desconfiança mútua na relação após as últimas semanas.
JHC decidiu apostar alto e colocou a esposa, a empresária Maria Cândia (PSDB), para disputar o Senado. Lira aceitou entendendo que ela não tem força para tirar mais votos que ele no estado, e uma aliança com a família pode ajudá-lo a ganhar eleitores em Maceió.
Momentos finais
Ainda na sexta-feira, informado sobre as mudanças de planos durante sessão de fotos com aliados, Lula chegou a se oferecer aos Calheiros para ligar para JHC, mas esse contato não foi feito. Entendeu-se que não adiantaria pois ele não iria cumprir o que prometera.
Aliados de JHC afirmam, porém, que interlocutores do presidente mantinham contato com o ex-prefeito e foram informados sobre a mudança de planos —e dizem que Lula teria entendido o caso pela pressão sobre JHC.
Lira também atuou diretamente com interlocutores de Lula para explicar os prejuízos a ele sobre a mudança de JHC e assim evitar uma crise política maior do que a que já estava formada.
PL na chapa, mas sem vice
A ponte com os aliados foi refeita, mas ainda havia outro nó: a aliança incluía o PL, que tinha decidido apoiar JHC com a condição de indicar o vice na chapa.
Mas um vice do PL ligado a Alfredo Gaspar estragaria o plano de neutralidade de JHC e poderia causar rejeição no interior do estado por associação com Flávio Bolsonaro.
Já no sábado, dia final de registrar a chapa, o PL aceitou não indicar o nome do vice para que o PSDB colocasse a ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha (PSDB) —nome bem visto e aprovado por Gaspar.
Aproximação com Lula e acordo
A aproximação de JHC com Lula não veio à toa e rendeu um ganho importante para a família: a tia dele, Marluce Caldas, foi indicada a ministra do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em julho de 2025, em uma articulação que envolveu diretamente os Calheiros e Lira.
Ali, segundo várias fontes ouvidas pelo UOL,foi fechado um acordo: JHC não seria candidato majoritário e deixaria o caminho livre para as eleições de Renan Filho ao governo e de Renan Calheiros e Arthur Lira para o Senado. Ele teria a sua disposição o PSB, partido que estava até 2022. Naquele momento, JHC estava no PL e poderia indicar a mãe Eudócia Caldas ou a esposa como primeira suplente de Arthur.
10.07.25 – O presidente Lula (PT) anuncia Marluce Caldas para o STJ junto ao ex-prefeito de Maceó JHCImagem: Ricardo Stuckert/PR
Quando o presidente veio a Maceió, em janeiro deste ano, JHC foi só elogios a Lula. Desde então, dizem aliados tucanos, a relação entre ex-prefeito e presidente é boa.
Mas em abril, no último dia possível pelo calendário eleitoral, JHC renunciou à prefeitura e manteve-se em silêncio sobre qual cargo iria se candidatar em outubro, embora afirmasse sempre aos mais próximos que iria disputar o executivo estadual.
O silêncio público sempre incomodou Lira, que esperava JHC se declarar logo candidato ao governo e o apoiar na corrida ao Senado. Isso não ocorreu até sábado, quando ambos se declararam, um ao outro, em redes sociais.
Lira tem desavenças claras com o pai de JHC, o ex-deputado federal João Caldas, presidente nacional do DC.
João Caldas entrou, em julho, com uma ação no STF contestando lei aprovada no ano passado no Congresso que fixou o parâmetro mínimo de idade para uma pessoa ser deputado federa —estabelecendo que é necessário ter 21 anos apenas 45 dias após a eleição da mesa diretora.
A medida foi encampada por Lira para beneficiar seu filho Álvaro Lira (PP), candidato a deputado federal que só faz 21 anos em 17 de março de 2027.
Lira, entretanto, entende que deve “separar” os dois Caldas. JHC jurou, à época, que nada teria a ver com a ação do pai no STF, e Lira aparentemente aceitou a versão.
O ex-presidente da Câmara mantém hoje uma boa relação com Lula —que sancionou a lei do parâmetro da idade— desde o começo do mandato e assim como JHC, não deve pedir voto a Flávio —em 2022 ele apoiou Jair Bolsonaro (PL). Na deste ano, irá se distanciar da disputa presidencial.
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