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Política do vale-tudo: família de Luiz Ferreira traz em carta detalhes do crime que tirou a vida do médico e político

5 de setembro de 2026
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Política do vale-tudo: família de Luiz Ferreira traz em carta detalhes do crime que tirou a vida do médico e político

Reprodução

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Por Mariana, Rita, Pedro e Diego Namé

Esse texto é um convite, mas antes de tudo uma reflexão. Um convite porquê após 15 anos de espera no dia 10 de setembro de 2026 ocorrerá mais uma etapa do julgamento do caso de assassinato do meu pai, colocando na letra da lei, júri popular de homicídio qualificado. 

Dados de uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em conjunto com a USP avaliam o cenário de violência política em nosso país, e Alagoas é o primeiro estado do ranking, se comparado o número de assassinatos, tentativas e ameaças, contra pessoas exercendo cargos eletivos, pelo número de eleitores. Alagoas, em seguida Acre e Rio de Janeiro, avaliando casos de 2003 a 2023. Outros estudos, que consideram também violência política àquela cometida contra líderes comunitários, lideranças indígenas e defensores de direitos humanos já apontam estados do Norte liderando esse ranking, com Roraima no topo. 

Associado a esse cenário, nós alagoanos, e de uma maneira geral os nordestinos, crescem ouvindo, em especial quando vão para o Sudeste, que temos a fama de bravos e que resolvem as coisas de maneira violenta. Mas essa não é a marca do povo nordestino, essa é a marca do coronelismo e sua milícia própria, a pistolagem. E essa é uma história antiga, que remonta aos mesmos conflitos que levam a crimes de mando hoje, conflitos pela manutenção do poder a qualquer custo, seja quem estiver na frente. De maneira geral os crimes de pistolagem, que são inúmeros e ilustram as páginas de reportagem policial e tem uma característica importante: eles têm executores, matadores profissionais, criminosos temidos e reconhecidos e eles têm os mandantes desses crimes, àqueles a quem de fato interessa a motivação do crime em si. 

Nesses crimes é comum que essa figura do destemido e  valente seja atribuída aos executores. É muito comum quem tenham nomes e codinomes que remetem à essas características: cruel, chapéu de couro, valente, irmãos brasão e é como se eles não se importassem em ter essas características atribuídas a eles, por que essa é parte do acordo criminoso, o acordo que preserva o mandante. 

Preserva porquê à primeira vista parece que o crime é menor, parece que àqueles executores passa a ser atribuída uma passionalidade, que justificaria a violência pela violência. Primeiro é preciso dizer que não há passionalidade nenhuma na violência, ou nos esquecemos dos famosos crimes passionais, que por anos à fio eram usados como “justificativa” da morte de mulheres, que hoje tem nome: feminicídio. Violência é violência, morte é morte, não é coragem, não é paixão, não é nada disso. Coragem e amor são outra coisa. Coragem é seguir na vida de cabeça erguida e lutando por uma política de justiça social e ética. Como minha família seguiu. 

Todo esse folclore em torno dos matadores, dos milicianos, capangas, esconde o fato mais importante: quem mandou matar? 

Nós, a família de Luiz Ferreira, sempre soubemos quem mandou matá-lo. Lemos o processo de perto, enfrentamos ameaças na pele, conectamos cada fato e cada prova. Assim como ocorre em outros crimes políticos célebres em Alagoas e no Brasil, onde a identidade dos mandantes é de conhecimento público e alguns deles ocupam cargos até hoje, os responsáveis continuam a desfilar diante de nós. Eles se perpetuam na política ao lado de seus filhos, sucessores dessa herança de poder e morte, e seguem mentindo impunemente.

As pessoas entram na política por diferentes motivos, mas nem todas o fazem com ética ou com o propósito de melhorar a vida de quem precisa. Infelizmente, grande parte busca o poder apenas para perpetuar seus privilégios e manter a realidade social intocada, afinal, é a própria desigualdade que sustenta aqueles que se recusam a mudar o cenário. Para se preservarem no topo, essas figuras são capazes de passar por cima de qualquer barreira, tornando a eliminação de opositores uma marca comum, executada por capangas e milicianos, agindo tanto no meio rural quanto nas grandes cidades. 

Luiz Ferreira era médico, professor universitário e alguém que acreditava piamente na transformação do mundo por meio de políticas públicas. Acima de tudo, era um apaixonado por sua cidade natal, Anadia, e por nossa família: minha mãe, meus dois irmãos e eu. Meu pai nunca mediu esforços para ajudar quem precisasse, mas sua não era pelo assistencialismo e sim pelas políticas públicas. Como trabalhador e defensor obstinado do SUS e da universidade pública, via a política como a ferramenta legítima para garantir direitos sociais aos que mais necessitavam. Durante seu mandato como vereador, criou o Conselho Tutelar de Anadia — um órgão dedicado justamente a proteger crianças e adolescentes da violência. E, em trágica ironia, foi exatamente a violência que o arrancou de nós. 

Meu pai assumiu na câmara, em 2010, lendo um poema que deixo abaixo: 

 

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente

Mentem de corpo e alma, completamente. 

E mentem de maneira tão pungente

Que acho que mentem sinceramente.

 

Mentem, sobretudo, impunemente.

Não mentem tristes. Alegremente mentem

Mentem tão nacionalmente

Que acham que mentindo história afora

Vão enganar a morte eternamente.

 

Mentem e calam.

Mas suas frases falam.

E desfilam de tal modo nuas 

Que mesmo um cego pode ver

A verdade em trapos pelas ruas.

 

Sei que a verdade é difícil

E para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade pela mentira

Nem a democracia pela ditadura”

Afonso Romão Santana

 

Ele leu esse poema para declarar, na posse, oposição, diante de uma série de desvios que começava a investigar na prefeitura e à rumos que não concordava sendo tomados. Ele passou todo esse ano fazendo oposição e tentando fazer política pública para seu povo. Nas vésperas de apresentar um dossiê com as denúncias, primeiro apagaram a luz da cidade para não ter seção da câmara, depois tentaram comprar vereadores para não irem votar, depois que se esgotaram as possibilidades, mataram ele, na estrada, à luz do dia, fuzilado em seu carro voltando pra nossa família.

Semanas antes disso as pessoas interessadas na morte dele, não sabíamos à época, almoçaram em nossa casa, para discutir algum ponto político de divergência, nesse almoço sondaram nossa casa e perguntaram se não tínhamos medo de morar ali e se tinha câmeras, ao que minha mãe respondeu que sim.

Essa resposta dela, por pura desconfiança ou intuição, depois que soubemos, nos salvou de uma chacina. Pois ao ler o processo e acessar a delação premiada dos executores soubemos que o crime seria em nossa casa, talvez armariam um assalto, talvez só matassem quem estivesse na frente, como foi feito com a Deputada Ceci Cunha em 1998 em Alagoas também. Matadores não medem esforços, mandantes também não, e pouco importa para eles quem esteja na frente. 

Um país onde uma pessoa que entra na política para melhorar e lutar pelos interesses do seu povo é assassinada, dá um recado muito claro às pessoas: aqui não é lugar de mudança, é lugar de manutenção de interesses. Nesse sentido o Brasil caminha longe ainda de qualquer regulamentação acerca da violência política, até hoje não há um registro oficial desses números, apesar da recomendação da Organização dos Estados Americanos (OEA), e apenas em 2021 a violência política foi reconhecida como uma tipificação no código penal, assim como violência de gênero foi muito recente o reconhecimento. 

Essa violência é maior durante eleições municipais e em especial em cidades pequenas, como é o caso de Anadia, e nessas cidades as prefeituras exercem um poder quase hegemônico e os órgãos de controle tem mecanismos frouxos ou com pouco poder de atuação. Muitas vezes as prefeituras funcionam como cabides de emprego e a política pública vira favorável apenas para seus correligionários. Essa não é a política em que acredito. E é do interesse de quem não quer defender o fortalecimento da democracia manter criminosos no poder, mandantes impunes e capangas a seu serviço. 

As pessoas têm que poder defender diferentes interesses sem serem assassinados, isso é o mínimo em uma democracia. 

Nesses 15 anos nossa família sofreu muito. Sofreu de saudade e sofre esperando por justiça. O julgamento marcado para o dia 10 é de mais um dos executores, um que estava foragido há alguns anos e recebeu 500 reais para matar meu pai, assim soubemos. Claro que queremos que ele também seja condenado, mas o julgamento principal, o da principal mandante do crime, caduca esperando que a justiça seja feita. 

Eliminação de opositores é o recado de quem faz política para manutenção de poder e privilégios. Não aceitaremos deixar nos calar, não aceitaremos a violência como recado político. Esse foi o principal recado da ditadura cívico- militar, que acabou, mas segue presente nas práticas dos mesmos coronéis de antigamente.

Há crimes para os quais não existe reparação possível, meu pai não volta à vida, não será meu pai novamente, não será o médico da cidade novamente, não será o marido da minha mãe ou o pai dos meus irmãos. Mas mesmo sem reparação a justiça é necessária e ela é um recado para a democracia. 

Nesses 15 anos nossa família espera memória e justiça e seguiu acreditando em outra forma de fazer política. Para que nunca se esqueçam, para que jamais aconteça!

Memória, verdade e justiça!

 

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