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Redação

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Filha busca Justiça histórica para pai, que matou Euclides da Cunha

9 de julho de 2019
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Em 1998, depois de lançar um livro sobre seu pai, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti deu de cara com uma frase pichada em sua porta ao chegar em casa: “Filha de assassino”.

Dirce ouviu a frase pela primeira vez quando tinha 11 anos, dita por uma colega no colégio interno, e depois muitas outras vezes ao longo da vida.

“Aquela foi a última vez que recebi essa pecha”, suspira ela aos 87 anos, em conversa com a BBC News Brasil, em seu apartamento no Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro. Veja entrevista em vídeo.

A pecha de assassino acompanhou toda a vida de seu pai, Dilermando de Assis – que entrou para a história como o homem que matou o escritor Euclides da Cunha.

O célebre autor de Os Sertões é o homenageado deste ano na 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 10 a 14 de julho. A justa homenagem a um dos expoentes da literatura brasileira no evento é, para Dirce, motivo de “preocupação, aflição e agonia”.

“Porque sei que vão falar muito no papai, e falar mal, certamente, porque muita gente não conhece a história como foi”, acredita ela. “Toda vez que se toca no Euclides da Cunha, o assassino dele vem à tona.”

Dilermando foi amante de Ana Emília Ribeiro da Cunha, a mulher de Euclides.

O caso começou em 1905, durante uma longa expedição do escritor pela Amazônia, chefiando a comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira entre os dois países.

Já mãe de três filhos de Euclides, Ana, de 33 anos, se apaixonou por Dilermando, um jovem cadete de 17 anos. Viveram quatro anos de romance proibido, e tiveram dois filhos fora do casamento.

Em 15 de agosto de 1909, o escritor chegou armado à casa de Dilermando para vingar sua honra. Travou-se um duelo, e Dilermando levou cinco tiros – mas era campeão de tiro, revidou, e matou Euclides da Cunha.

Dilermando foi absolvido por legítima defesa, mas foi condenado pela imprensa da época e pela opinião pública.

O caso se desdobrou em novas tragédias, com as mortes posteriores de Euclides da Cunha Filho e do irmão de Dilermando, Dinorah de Assis.

Desagravo
Nas últimas décadas, Dirce – que é a única filha do segundo casamento do pai – tem lutado para tirar do nome do pai a alcunha de “assassino”.

“O que eu mais quero, todo o meu empenho, é tirar essa palavra de sua biografia, que é tão pesada, tão feia”, diz Dirce.

“Ele não é o assassino. Ele matou por legítima defesa. É só isso que eu gostaria de deixar definido.”

Dirce é escritora, poeta e artista plástica. A sala de seu apartamento é povoada por suas pinturas e esculturas, além de um portarretrato do pai, ainda moço.

“Ele usava barba para parecer mais velho com a Ana, para não haver muita diferença de idade entre eles. Houve um amor muito grande da parte dos dois, para enfrentar inclusive tudo que eles enfrentaram vida afora, que não foi pouca brincadeira.”

BBC

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