A obesidade mais que dobrou entre adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal em 18 anos. Dados do Vigitel Brasil 2006/2024, divulgados pelo Ministério da Saúde, mostram que a prevalência passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. O excesso de peso também cresceu no período, de 42,6% para 62,6%. No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado em 11 de outubro, os números dimensionam uma doença crônica associada a maior risco de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde.
Um estudo publicado em 2026 acrescenta um novo ponto a essa discussão: o que acontece depois do emagrecimento. Revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, apontou que, um ano após a interrupção de medicamentos agonistas de GLP-1, pacientes recuperaram, em média, cerca de 60% do peso perdido durante o tratamento. A pesquisa reuniu 48 estudos e utilizou dados de 3.236 participantes de ensaios clínicos para estimar a trajetória do reganho de peso.
A médica nutróloga Eline Soriano explica que o resultado não significa simplesmente que o paciente “voltou a comer como antes”. Durante a perda de peso, o organismo pode passar por adaptações que aumentam a fome, modificam os sinais de saciedade e reduzem o gasto energético, numa tentativa de conservar energia e recuperar parte do peso eliminado.
“Existe uma resposta biológica à perda de peso. O organismo pode passar a gastar menos energia e aumentar os estímulos relacionados à fome. Isso ajuda a entender por que manter o peso pode ser tão desafiador quanto emagrecer e por que o reganho não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina do paciente”, explica Eline.
Uso crescente – A discussão ocorre em meio ao aumento do uso das chamadas canetas emagrecedoras no Brasil. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgados pelo Ministério da Saúde em setembro de 2026, mostram que o número de usuários desses medicamentos passou de aproximadamente 400 mil para mais de 750 mil por mês.
Para Eline, a maior disponibilidade dessas terapias exige atenção também ao planejamento de longo prazo. A indicação, a duração e uma eventual retirada do medicamento dependem da resposta clínica e das características de cada paciente.
“Não se deve iniciar um tratamento pensando apenas em quantos quilos serão perdidos. É preciso avaliar desde o começo como preservar massa muscular, acompanhar a saúde metabólica e trabalhar a manutenção do resultado. Quando há indicação de medicamento, a retirada também precisa ser discutida e planejada”, afirma.
Alimentação adequada, atividade física, sono e acompanhamento clínico continuam fazendo parte do tratamento. Em uma doença crônica, porém, essas medidas não devem ser tratadas como uma fórmula isolada nem como garantia de que o peso não voltará.
“O tratamento bem-sucedido não termina quando a balança chega a determinado número. O objetivo é controlar a doença, reduzir riscos à saúde e construir condições para que o resultado seja sustentado ao longo do tempo”, finaliza Eline Soriano.
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