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Natália Lopes

Natália Lopes

Sou apaixonada por livros, ouço música o tempo todo e escrevo e escrevo... encontrei aqui na internet um monte de maneiras de amplificar o que antes ficava apenas na minha coleção de caderninhos. Sou de reunir histórias, relembrar a infância e querer registrar tudo o que meus olhos viram e meu coração sentiu. Compartilho aqui meus pedaços de afeto esboçados em memórias e palavras.

A tendência ao devaneio

23 de setembro de 2022
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A tendência ao devaneio
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Eu tive um sonho estranho. Ouvi barulho de chuva, mas quando saí na rua, não estava chovendo. O barulho foi se transformando em vozes, muitas vozes incompreensíveis e comecei a segui-las. Estava sozinha, sentia uma leve falta de ar e à medida que eu caminhava no sentido daqueles sons de gritos e risadas misturados, ele diminuía ainda mais. Comecei a ver as pessoas e elas pareciam comemorar alguma coisa. Na incapacidade de me orientar, me sentia cada vez mais perdida, enquanto alguém gritava no microfone de um lugar muito alto, como se estivesse em cima de um prédio em movimento; e as pessoas, vestidas com roupas rasgadas e sujas, repetiam aquelas palavras gritando também. Algumas delas vinham em minha direção e eu sabia que as conhecia, embora não conseguisse ver seus rostos, via ali apenas pedaços borrados de corpos aparentemente desgastados. Elas continuavam a gritar igual à pessoa que estava no lugar alto, riam nervosamente e eu não conseguia me comunicar. Parecia noite, olhei para o céu e ele estava começando a ganhar uns tons rosados. Eu não sabia se estava amanhecendo, enquanto o barulho não parava e as pessoas sem rosto continuavam a passar por mim, gritando frases desconexas e rindo muito de algo, como se estivessem contando piada. Tudo muito confuso e nebuloso. De repente, uma luz muito forte veio surgindo no céu e imaginei que fosse o sol. Olhei para cima e tudo continuava igual. Então o barulho foi interrompido, a luz era tão intensa que me impedia de abrir os olhos e enxergar qualquer coisa, o silêncio tomou conta de tudo. 

Acordei num salto sem nem lembrar direito onde estava. Parei para ouvir o silêncio da madrugada, mas todos os sons da minha mente sonolenta não me deixaram voltar a dormir e depois de virar de um lado para o outro em várias tentativas fracassadas de pegar no sono de novo, fui atrás do meu diário, já que ele era o único ouvinte possível naquele momento. A letra aos garranchos, sono? pressa? raiva? Olha, eu nem sei te falar. Como é que eu vim parar aqui nessa constante alucinação dormente que me persegue nos últimos quatro anos, me fazendo desenvolver uma enxaqueca que nunca tive? No governo do Jair, eu fali um negócio promissor e que estava mudando a minha vida, vi amigos perderem seus grandes amores, tive medo de morrer, deixei pessoas que eu amava pelo caminho, porque mesmo com o meu coração partido, era difícil dividir a vida com quem nega a existência de outras pessoas, descobri hipertensão quando a sistólica chegou no incrível pico dos vinte e dois e a diastólica abocanhou o dezoito com força, tive medo de morrer, desenvolvi ansiedade, me aproximei da depressão, resgatei meu casamento uma vez, duas vezes, três vezes, tive crise de coluna, crise financeira, crise emocional, crise existencial, tomei dramin, fumei maconha, perdi o sono, dormi demais, tive medo de morrer, vi nascer e crescer em mim um ódio que me paralisou e me fez gritar, na mesma intensidade, repetidas e tantas vezes, que eu perdi a capacidade de reagir a tudo, porque não sabia lidar com aquilo que eu nunca havia sentido antes, mas aprendi também que a luta pela sobrevivência não nasce do conforto, nem mesmo do amor, tão bonito e sublime que não merece dividir espaço com nada parecido com revolta, tive medo de morrer, senti o cheiro da morte pela tevê, pela tela do celular, a enxerguei nos olhos das pessoas, encontrei outros propósitos, não tive forças, desisti deles, perdi as palavras tantas vezes que me questionei se ainda sabia fazer qualquer coisa além de tentar existir, tive medo de morrer, reduzi os sonhos, a feira, racionei energia, senti mais enjoo que o normal, desequilibrei minha imunidade, tomei mais dipirona, neosaldina, nebulização, relaxante muscular, shot de limão e suco verde do que havia tomado em trinta anos, tive medo de morrer.

Perdi quase tudo, inclusive a esperança. Portanto, meu caro amigo sorridente do mundo ideal, me perdoe, mas agora que a vida quer voltar para o meu corpo de novo, eu vou tirar esse azedume do peito, você vai ouvir minha voz de longe, vai aguentar os meus gritos de onde estiver e vai me ver fazendo campanha contra o Jair, sim, porque eu sou uma sobrevivente e continuarei torcendo para que Jair, seu gado, suas ideias, sua pulsão de morte, seu veneno e seu fascismo queimem todos no inferno. Vida longa à esperança! 

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