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Redação

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O que muda para o Brasil com PCC e CV na lista de terroristas nos EUA

30 de maio de 2026
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O que muda para o Brasil com PCC e CV na lista de terroristas nos EUA

Molly Riley/Casa Branca

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A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu uma nova frente de pressão sobre o Brasil. Anunciada pelo governo de Donald Trump, a medida tem efeito direto na legislação norte-americana, mas pode produzir consequências no sistema financeiro, na cooperação policial, na política externa, no comércio exterior e no debate eleitoral brasileiro.

O que os EUA decidiram

Os EUA incluíram PCC e CV em duas categorias. A primeira é a de Terroristas Globais Especialmente Designados, usada para impor sanções financeiras e bloquear ativos. A segunda é a de Organização Terrorista Estrangeira, conhecida pela sigla FTO, que passa a valer a partir de 5 de junho e aciona instrumentos mais duros da legislação americana.

Em nota assinada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, o Departamento destacou que PCC e Comando Vermelho comandam milhares de integrantes e têm histórico de ataques contra policiais, autoridades públicas e civis no Brasil. Além disso, o governo dos EUA afirmou que a atuação dessas organizações se estende para além do território brasileiro e chega a atuar em outros países, inclusive nos Estados Unidos, por meio do tráfico de drogas.

Na prática, a principal consequência é tornar crime, nos Estados Unidos, prestar conscientemente “suporte material” a uma organização classificada como terrorista estrangeira. Esse conceito é amplo e pode incluir dinheiro, bens, serviços, transporte, treinamento, consultoria, tecnologia, logística, hospedagem ou qualquer apoio econômico ou operacional.

Quem pode ser atingido

A medida pode atingir lideranças, integrantes, operadores financeiros, laranjas, doleiros, intermediários, transportadores, consultores, empresas de fachada e negócios usados para lavar dinheiro. Também pode afetar brasileiros com vínculos comprovados com as facções em pedidos de visto, entrada ou permanência nos EUA. Para o cidadão comum que vive em área dominada pelo crime, paga extorsão ou atua sob coação, não há punição automática: o risco jurídico recai sobre quem age de forma consciente para beneficiar os grupos.

O nó jurídico no Brasil

A classificação americana não transforma automaticamente PCC e CV em organizações terroristas pela lei brasileira. No Brasil, as facções continuam enquadradas como organizações criminosas, sujeitas à legislação sobre tráfico, lavagem de dinheiro, homicídios, extorsão, corrupção e domínio territorial. A Le Antiterrorismo brasileira exige motivações específicas, como xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, além da finalidade de provocar terror social ou generalizado.

Para Washington, as facções representam ameaça terrorista e transnacional. Para o governo brasileiro, são grupos criminosos violentos, complexos e internacionalizados, mas movidos por lucro, controle territorial e domínio de mercados ilícitos, não por motivação ideológica ou religiosa prevista na legislação nacional.

O impacto sobre bancos, empresas e fintechs

O problema, porém, não é apenas jurídico. PCC e CV deixaram há muito tempo de atuar somente no varejo do tráfico. As facções expandiram suas redes para fronteiras, portos, rotas internacionais de cocaína, tráfico de armas, garimpo ilegal, contrabando, extorsão, lavagem de dinheiro e infiltração em atividades empresariais.

Por isso, o impacto econômico pode ser relevante. Bancos, seguradoras, fundos, corretoras, fintechs, empresas de logística, companhias de comércio exterior e multinacionais tendem a reforçar seus controles internos. Setores já apontados como vulneráveis à lavagem de dinheiro, como combustíveis, apostas, criptoativos, imóveis, transportes, portos e serviços financeiros digitais, podem passar por maior escrutínio.

O risco não é apenas o bloqueio de bens de criminosos. Empresas e instituições podem evitar clientes, operações ou setores considerados sensíveis por medo de conexão indireta com redes ligadas às facções, em um movimento conhecido como “de-risking”. Dependendo de como os EUA aplicarem a medida — de forma cirúrgica ou expansiva —, também pode haver impacto sobre crédito, investimentos e percepção de risco para negócios brasileiros expostos ao dólar ou a bancos correspondentes americanos.

O alerta do Fórum de Segurança Pública

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública criticou a decisão dos EUA. Em nota, a entidade afirmou lamentar que um tema com “implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional” tenha sido capturado pela disputa eleitoral. Para o Fórum, a classificação como terrorismo pode simplificar um problema muito mais complexo.

A entidade ressalvou que Brasil e Estados Unidos têm longa tradição de cooperação policial, troca de inteligência e combate à lavagem de dinheiro, e que isso deve continuar. Mas afirmou que parte dos políticos que apoiaram a medida demonstra visão “reducionista” ao ignorar tarefas centrais do poder público, como retomar territórios e regular mercados usados pelo crime organizado, entre eles fintechs, bets e criptoativos.

Segurança pública: inteligência ou guerra?

Na segurança pública, a medida pode ter efeitos ambíguos. De um lado, pode ajudar no rastreamento de recursos no exterior, no bloqueio de ativos, na identificação de empresas de fachada, no compartilhamento de inteligência, em pedidos de cooperação judicial e no cerco a rotas, armas, drogas e lavagem de dinheiro. De outro, pode alimentar uma política de exceção, com linguagem de guerra, operações mais letais e tratamento de territórios vulneráveis como zonas inimigas.

A crítica de especialistas é que o combate às facções não se resolve apenas com endurecimento penal ou mudança de rótulo jurídico. A estrutura de poder do crime organizado depende de dinheiro, armas, controle prisional, lavagem de recursos, corrupção, redes logísticas e domínio territorial. Sem atingir esses pilares, o Estado prende ou mata operadores na ponta, mas não desmonta o sistema.

O governo federal tenta responder ao avanço das facções por meio do programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado em maio, com foco em quatro eixos: asfixia financeira, combate ao tráfico de armas, aumento da elucidação de homicídios e reforço da segurança no sistema prisional. A iniciativa mostra que o Planalto aposta em inteligência financeira, cooperação federativa e controle penitenciário, e não na importação do conceito americano de narcoterrorismo.

A preocupação com a soberania

A maior preocupação do governo brasileiro é a soberania. A decisão dos EUA não autoriza automaticamente qualquer ação militar em território brasileiro, mas cria uma moldura jurídica e política que pode ser usada para ampliar pressões externas. O Planalto teme que Washington passe a reivindicar mais protagonismo em investigações, sanções, bloqueios patrimoniais, pedidos de extradição e operações relacionadas a facções brasileiras, transformando um problema nacional de segurança pública em tema de terrorismo internacional.

O interesse político da oposição

A oposição, especialmente o bolsonarismo, viu na decisão uma oportunidade política. Depois do encontro com Donald Trump na Casa Branca, Flávio Bolsonaro afirmou ter defendido junto ao presidente americano a classificação de PCC e CV como organizações terroristas, e aliados passaram a usar o episódio para acusar Lula de hesitação diante do crime organizado. O objetivo é associar a direita a uma política de endurecimento e, ao mesmo tempo, pressionar o Congresso a aprovar propostas que tratem facções criminosas como terroristas ou narcoterroristas.

“Eu fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele. Nós temos um em cada quatro brasileiros morando em áreas dominadas por facções criminosas, que impõem as suas próprias regras, facções que são espécies de governo paralelo em muitas áreas do Brasil, e nós vamos libertar essas pessoas”, disse Flávio.

Por que Lula resistiu à classificação

O governo Lula resistiu à medida por razões jurídicas, diplomáticas, econômicas, políticas e estratégicas. Para o Planalto, a classificação conflita com a legislação brasileira, pode abrir brecha para ingerência estrangeira, gerar efeitos colaterais sobre empresas e bancos, fortalecer a oposição em ano eleitoral e substituir uma agenda de inteligência por uma retórica de guerra. A controvérsia, portanto, não está em saber se PCC e CV são perigosos. Há consenso de que são. A disputa é sobre como enfrentá-los sem abrir mão da soberania, sem fragilizar a economia formal e sem transformar a segurança pública em atalho político de alto risco.

 

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