Redação*
O jornalista e colunista do UOL, Leonardo Sakamoto, publicou um artigo em que chama atenção para um dos desdobramentos mais importantes do caso Braskem em Maceió. No texto, ele destaca que, enquanto a atenção do país estava voltada para outros acontecimentos, a Justiça Federal em Alagoas aceitou denúncia do Ministério Público Federal e tornou ré a empresa e 13 pessoas físicas no processo que investiga o afundamento de bairros da capital alagoana. Confira:
“Enquanto o Brasil estava entretido com a abertura da Copa, a Justiça Federal de Alagoas tornava ré a Braskem e 13 pessoas físicas no processo de afundamento de bairros de Maceió. O país precisa ficar de olho no resultado dessa partida, porque o resultado pode ser mais vergonhoso que tomar um 7 a 1 da Alemanha.
O caso da capital alagoana não foi apresentado pelo Ministério Público Federal como um acidente, mas um projeto para a empresa e seus acionistas ganharem bilhões.
A investigação foi conduzida dentro da operação Lágrimas de Sal, da Polícia Federal, e a denúncia do MPF gerou 17 volumes, que foram destrinchados por Carlos Madeiro, no UOL. O que se desenha é uma das maiores catástrofes urbanas já provocadas por uma empresa privada no mundo.
Documentos obtidos pela PF mostram que a empresa Salgema (que foi absorvida pela Braskem em 2002) sabia desde pelo menos 1988 que a extração de sal-gema causava afundamento do solo e colocava em risco uma área residencial inteira da capital alagoana. Uma série de relatórios sobre os impactos foram encaminhados nos anos seguintes, mas nada foi feito.
O MPF acusa a Braskem de ter adotado uma “estratégia corporativa de ocultação sistemática” para garantir a lucratividade e o abastecimento de suas indústrias.
A principal fraude documental teria ocorrido em 2012 e 2013, quando a empresa protocolou petições junto ao então DNPM, o órgão de fiscalização mineral, afirmando falsamente que a operação era “invariavelmente segura” e que “não havia qualquer evidência de rebaixamento do solo” na localidade. Isso, segundo o MPF, ocorreu enquanto dados internos mostravam um afundamento de 1,20 metro.
O rebaixamento começou a se tornar visível para a população em março de 2018, após um tremor que deixou as rachaduras expostas nos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro. A Braskem respondeu com mais documentos negando que era a causadora do problema e alegando que os impactos da extração mineral eram “irrelevantes”.
Cerca de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas ou fechar seus negócios a partir de 2018, bairros foram esvaziados e imóveis, demolidos. A área virou um campo vazio pontuado por equipamentos de monitoramento. A previsão é que o solo só se estabilize por volta de 2040, quando a região poderá ser convertida em parque.
O caso da Braskem em Maceió é, na sua essência, uma radiografia de como uma parcela da nossa classe dominante opera: privatiza lucros, socializa prejuízos, compra silêncio institucional e, quando o chão literalmente desmorona, ainda tenta culpar a geologia.
Da Vale em Mariana e em Brumadinho, à Braskem em Maceió. Empresas que conhecem os riscos, documentam os riscos, contratam consultores que apontam os riscos e deliberadamente escolhem não agir, porque o custo de agir é mais caro do que o custo de esconder.
Vale lembrar que a empresa era controlada pela Novonor (antiga Odebrecht) até maio, quando o controle passou ao fundo chinês Shine I. A Petrobras detém 47% e a Novonor ainda tem 2,9%.
Apesar da importância disso, quantos ficaram sabendo que a Justiça Federal apitou o início da partida em Alagoas?
Ganhar a Copa seria bonito. Mas ver uma empresa de bilhões de dólares responder por ter afundado uma cidade que ela sabia que estava afundando, e ter mentido sobre isso por 40 anos vai ser, para a história do Brasil, muito mais importante.”
/com Leonardo Sakamoto – UOL














